sexta-feira, 22 de março de 2024

CORTADO PELA CENSURA - 8 "Quando os lobos uivam" (1958) viu proibida a reedição



       

      Aquilino Ribeiro no seu livro QUANDO OS LOBOS UIVAM (1958) recria a situação de um aldeia em que os baldios são de um dia para o outro confiscados pelo Estado para plantação de pinheiros, quando eles serviam para utilização comunitária e eram o sustento de muita gente. O regime considerou o livro “injurioso” para o Estado português e impôs ao autor um processo-crime. Este foi entretanto arquivado, depois de um movimento que chegou ao estrangeiro, com a tomada de posição de escritores como Mauriac, Aragon e Maurois. Na altura da morte de Aquilino (1963), as homenagens realizadas foram proibidas de serem divulgadas na imprensa.

       Eis o teor do relatório que o inspetor encarregado de apreciar esta obra apresentou à Comissão de Censura em fevereiro de 1959:

     «O autor intitula este livro de romance, mas com mais propriedade deveria chamar-lhe de romance panfletário, porque todo ele foi arquitetado para fazer um odioso ataque à atual situação política. Escrito numa prosa viril, classifica o governo de piratas e descreve várias Autoridades, Funcionários, Polícia, Guarda Republicana e Tribunais em termos indignos e insultuosos. Um interrogatório num posto da G.N.R. e uma audiência dum Tribunal Plenário, são focados de uma forma infamante. São desnecessárias mais citações, porque basta folhear o livro, encontra-se logo matéria censurável em profusão. É evidente que, se o original tivesse sido submetido a censura prévia, não teria sido autorizado, porque é, talvez, a obra de maior ataque político que ultimamente tenho lido. Sucede, porém, estou disso certo, que já devem ter sido vendidos muitas centenas de exemplares, e muitos outros também, já devem ter passado a fronteira, por isso, deixo ao esclarecido critério de V. Exa., decidir se nesta altura, será de boa política mandar apreender o livro (...)».

      A Censura decidiu assim não autoriza a reedição, não permitir críticas na imprensa e “apreender os poucos exemplares que, possivelmente, existam (...)”. Quase uma confissão de impotência diante do “mal” já feito.

     O livro era duro para o regime. Aqui fica uma citação famosa da obra:

     “Para nós, serranos, é sempre opressão, ainda que se não proteste, ainda que não saibamos exprimi-la. Nós somos bárbaros, mas bárbaros sem trela. Temos muito dos lobos, que, mesmo nas selvas plantadas a cordel, não aprenderam a moderar os instintos da sua braveza. 

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